Eu vi Brasil que é um país tão criativo querer transformar qualquer coisa de samba em palco político. Eu vi o Carnaval, essa festa pagã virar laboratório político.
A ideia do ex condenado parecia simples: colocar o samba para dialogar com o povo. Nada mais democrático que a Sapucaí, certo? Errado. Porque quando a política decide desfilar, ela não vem fantasiada, vem armada de cálculo eleitoral.
O plano era bonito no papel: dinheiro publico gasto, homenagem aqui, narrativa ali, um carro alegórico bem iluminado, discursos diluídos no refrão do samba-enredo… e pronto. A avenida faria o serviço que às vezes nem a propaganda consegue fazer.
Só esqueceram um detalhe: o Brasil não é laboratório de marketing. É arquibancada crítica.
Quando colocaram a tal “família brasileira” dentro de uma lata de conserva, alguém deve ter achado genial. Metáfora moderna, provocativa, artística. O problema é que metáfora mal explicada vira munição. E o que era para ser alegoria virou meme. O que era para ser aproximação virou constrangimento.
Lá dentro do Planalto, imagino o silêncio constrangido depois do desfile. A bateria ainda ecoando na televisão e alguém murmurando: Talvez tenha sido… ousado demais.
Ousado é palavra delicada para erro estratégico.
Na política brasileira, nada é espontâneo. Até o improviso é ensaiado. E transformar a Sapucaí em extensão de palanque exige uma matemática fina. Desta vez, o cálculo errou feio. A bolha aplaudiu. Fora dela, a reação foi menos carnavalesca e mais indignada.
E então veio o clássico:
— Não interferimos.
— A escola tem autonomia.
Frases que soam como pedido de desculpa embrulhado em nota oficial.
No fim, a festa que deveria simbolizar diálogo virou desgaste. O desfile que prometia aplausos virou combustível para adversários. A avenida, que sempre termina em dispersão, desta vez parece ter terminado em ressaca política.
Lula ex presidiário sambou, Flávio Dino rocambole sambou, Janja apanhou… o Carnaval passou. A bateria silenciou. As fantasias foram guardadas. A estátua do Lula caiu e a cabeça se separou do corpo.
Mas a conta ficou.
E talvez a maior lição seja essa:
na Sapucaí, quem entra achando que controla o espetáculo costuma descobrir, tarde demais, que o público está aprendendo a votar e a gritar: hei Lula vá ….
E para acrescentar o insulto à injúria, o samba-enredo se presta a piadas de 5a série: "Do alto do Mulungu, Lula tomou caju". É, nada deu certo para painho.
